Césio 137 Goiânia

Sobre o acidente

SAIBA COMO OCORREU O ACIDENTE : A HISTÓRIA, FATOS E RELATOS .

                              Em setembro de 1987 aconteceu o acidente com o Césio-137 (137Cs) em Goiânia, capital do Estado de Goiás, Brasil. O manuseio de um aparelho de radioterapia abandonado onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, gerou um acidente que envolveu direta e indiretamente centenas de pessoas. Por este motivo, é considerado o maior acidente radiológico do mundo. 

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A HISTÓRIA DO ACIDENTE RADIOATIVO DE GOIÂNIA

                          Em setembro de 1987 aconteceu o acidente com o Césio-137 (137Cs) em Goiânia, capital do Estado de Goiás, Brasil. O manuseio  de um aparelho de radioterapia abandonado onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, gerou um acidente que envolveu direta e indiretamente centenas de pessoas. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci) continha cloreto de césio, composto químico de alta solubilidade.


                         O Césio-137, isótopo radioativo artificial do Césio, tem comportamento, no ambiente, semelhante ao do potássio e outros metais alcalinos, podendo ser concentrado em animais e plantas. Sua meia vida física é de 33 anos. Com a violação do equipamento, foram espalhados no meio ambiente vários fragmentos de 137Cs, na forma de um sólido de cor azul, sem brilho durante o dia , porém no escuro, emitia brilho forte e magnetizante. Isto provocou a contaminação de diversos locais, especificamente naqueles onde houve manipulação do material e para onde foram levadas as várias partes do aparelho de radioterapia. Por conter chumbo e metal , materiais de  algum valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho,onde também se comercializava mateirais recicláveis. O  dono deste estabelecimento a repassou a outros dois depósitos, além de distribuir os fragmentos do material radioativo a parentes e amigos. Estes,  por suas vezes, também  levaram os fragmentos para  suas casas.

                          Dentre as pessoas que tiveram contato com o material radioativo – tipo por  contato direto na pele (contaminação externa), ou por inalação, ingestão, ou  absorção por penetração através de micro-lesões da pele (contaminação interna) e  por irradiação - algumas apresentaram, desde os primeiros dias, náuseas, vômitos, diarréia, tonturas e lesões do tipo queimadura na pele. Várias  delas buscaram assistência médica em hospitais locais. A esposa do dono do depósito de ferro-velho, suspeitando que aquele material tivesse relação com o mal-estar que se abateu sobre sua família, levou a peça para a Divisão de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde, onde finalmente o material foi identificado como radioativo. 
   
                          Devido às características do acidente de Goiânia, as vias potenciais de exposição da população à radiação foram: inalação de material ressuspenso, ingestão de frutas, verduras e animais domésticos e irradiação externa devido ao material depositado no ambiente.

                           A fonte radioativa foi removida e manipulada no dia 13 de setembro, porém o acidente radioativo só foi identificado como tal no dia 29 do mesmo mês, quando foi feita a comunicação à Comissão Nacional de Energia Nuclear –CNEN, que notificou a Agência Internacional de Energia Atômica –AIEA. Foi acionado um plano de emergência do qual participaram CNEN, Furnas Centrais Elétricas S/A –FURNAS, Empresas Nucleares Brasileiras S/A -NUCLEBRÁS, DEFESA CIVIL, ala de emergência nuclear do Hospital Naval Marcílio Dias –HNMD, Organização de Saúde do Estado de Goias- OSEGO ( atualmente Secretaria Estadual de Saúde de Goiás – SES/GO), Hospital Geral de Goiânia –HGG, além de outras instituições locais, nacionaise internacionais que se incorporaram ou auxiliaram a “Operação Césio-137”.

                             As primeiras providências foram identificar, monitorar, descontaminar e tratar a população envolvida; as áreas consideradas como focos principais de contaminação foram isoladas e iniciou-se a triagem de pessoas no Estádio Olímpico. A descontaminação dos focos principais foi feita removendo-se grandes quantidades de solo e de construçõesque foram demolidas. Ao mesmo tempo era realizada a monitoração para quantificar a dispersão do 137Cs no ambiente, além de análise de solo, vegetais, água e ar.

                             Foram identificados e isolados sete focos principais, onde houve a contaminação de pessoas e do ambiente e onde havia altas taxas de exposição. No total, foram monitoradas 112.800 pessoas. Dentre elas,  em 6.500 constatou-se algum grau de irradiação e em 249 verificou-se significativa contaminação interna e/ou externa.

                             Os 129 que constituíam o grupo com contaminação interna e/ou externa passaram a receber acompanhamento médico regular. Destes, 79 com contaminação externa receberam tratamento ambulatorial. Dos  50 radioacidentados restantes, cuja contaminação interna foi comprovada, 30 foram assistidos em albergues; 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Destes últimos, 14 em estado grave foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro,  oito evoluíram para  a Síndrome Aguda da Radiação - SAR , 14 apresentaram falência da medula óssea e 01 sofreu amputação do antebraço, quatro deles foram a óbito. No total, 28 pessoas desenvolveram em maior ou menor intensidade, a Síndrome Cutânea da Radiação (as lesões cutâneas também eram ditas “radiodermites”).  Os casos de óbito ocorreram cerca de 04 a 05 semanas após a exposição ao material radioativo, devido a complicações esperadas da SAR , como  hemorragia (02 pacientes) e infecção generalizada (02 pacientes).

                            O acidente de Goiânia gerou 3500m3 de lixo radioativo, que foi acondicionado em containeres de aço e depois concretados. O repositório definitivo deste material localiza-se na cidade de Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, onde a CNEN instalou o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, que executa a monitoração dos rejeitos radioativos e controle ambiental.

                              Para executar o monitoramento sobre os efeitos da exposição à radiação ionizante nas pessoas que foram vítimas deste acidente, o governo do Estado de Goiás criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira, posteriormente transformada em Superintendência Leide das Neves Ferreira - SULEIDE. Foram definidos grupos de pacientes, de acordo com normas internacionais, que consideram como critérios de classificação a gravidade das lesões cutâneas e a intensidade da contaminação interna e externa, e que determinou a metodologia dos protocolos de acompanhamento médico.

                               Os cálculos de dose das pessoas foram feitos com base nos resultados dos exames de dosimetria citogenética, para avaliação da exposição externa; e de análise de excretas e contador de corpo inteiro para avaliação da contaminação interna. Pela técnica de dosimetria citogenética estima-se a dose recebida através de aberrações cromossomiais causadas pela radiação. A dose estimada é proporcional ao número de aberrações existentes.   A técnica de análise de excretas é chamada de monitoração in vitro e a de contador de corpo inteiro – detectores de radiação são colocados próximos ao corpo e inferem a quantidade de material radioativo incorporado e subseqüentemente a dose – monitoração in vivo.

                               Das várias lições aprendidas neste acidente, podemos nos referir àquela que trata da nossa responsabilidade em conhecer as conseqüências de se lidar com ciência e tecnologia, e ampliarmos os cuidados que priorizam a ética e o respeito à vida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN (1988): Relatório do Acidente Radiológico em Goiânia.

da Cruz AD (1997): Monitoring the Genetic Health of Humans Accidentally Exposed to Ionizing Radiation of Cesium-137 in Goiânia (Brasil).

Fundação Leide das Neves Ferreira – FUNLEIDE (1989): História do Acidente Radioativo com o Césio-137 – Relatos.

ORG (2007) Carla de Camargo Wascheck, Odesson Alves Ferreira, Patrícia Melo de Alencar


 RELATOS DAS PESSOAS ENVOLVIDAS

                    

                           Segundo o relato de pessoas diretamente envolvidas, a história do acidente radioativo com o Césio-137 (137Cs) teve início quando RSA, sem profissão definida, 21 anos, tomou conhecimento de que, na Avenida Paranaíba, Setor Central de Goiânia, havia uma peça contendo chumbo e  metal de considerado valor financeiro por ser reciclável , que há muito  permanecia esquecida e abandonada  nos escombros das  antigas dependências do Instituto Goiano de Radiologia – IGR. Esta peça fazia parte de um equipamento que era usado no tratamento do câncer,  de propriedade de CFB, CCD e OAT.

                          Conforme  OAF, na manhã de domingo, dia 13 de setembro de 1987 , RSA e seu amigo WMP, motorista, 20 anos, foram até os escombros para buscar a peça. Conseguiram remover parte do envólucro em que estava embutida a fonte radioativa para em seguida, separarem-nas da carcaça. Com o auxílio de um carrinho de mão, o cilindro que pesou 120 Kg  foi  transportado para a casa de RSA, situada à Rua 57, Setor Central de Goiânia. Naquele mesmo dia, RSA e WMP começaram a apresentar sintomas de contaminação radioativa (tonteiras, náuseas e vômitos), porém,acreditaram serem eles provocados por excesso de ingestão de alimentos.

                           No dia seguinte, WMP, teve seu quadro clínico agravado por diarréia enquanto um edema já se manifestava numa de suas mãos. No dia 18, ao solicitar auxílio médico no Hospital São Lucas, localizado na Rua 04, centro, WMP teve seu mal-estar diagnosticado como sendo reação alérgica à ingestão de alimentos estragados e foi por isso aconselhado a permanecer em casa, pelo período de uma semana.

                          Ainda no domingo, dia 13, , RSA e WMP, removeram o o lacre da cápsula para posteriormente venderem  o chumbo , o aço e outro metal  ao ferro -velho, ficando o material radioativo exposto sob um pé de manga, por cerca de mais uns 5 dias.

                            No período vespertino do mesmo dia 18, DAF, 39 anos, locatário, morador  e negociante do Ferro- Velho comprou de WMP    o cilindro de 98 Kg, no qual se acoplava uma peça de 22 Kg, em cujo orifício se encontrava a fonte radioativa .  A COPEL(Comércio de Aparas de Papel Limitada – COPEL) dividia o espaço com  Ferro-Velho, situado à Rua 26- A, Setor Aeroporto,  ambos trabalhavam com material reciclável. Por esta razão, o conjunto de chumbo, metal, aço e 137Cs foi transportado para aquele estabelecimento em um carrinho usado por catadores urbanos de papel  e de material reciclável pelo funcionário de DAF, ESA, idade aproximada de 23 anos, juntamente com WMP. No final da noite, quando DAF passava pelo pátio do seu estabelecimento – local onde todas as peças foram depositadas -, ele percebeu, em meio à escuridão, um intenso brilho azul saindo da cápsula de aço. Atraído pela beleza e mágica  da luminosidade, DAF teve a sensação de que possuía algo valioso ou, talvez até, sobrenatural.

                           Embevecido, resolveu transportar a cápsula para o interior de sua casa, colocando-a junto a uma parede da sala para melhor apreciar o que lhe parecia ser um fenômeno. Entre  os dias de 19 e 26, vários vizinhos, parentes, amigos e conhecidos foram convidados a ver aquela peça como sendo uma curiosidade. Nesse período, DAF e sua esposa, MGF – dona de casa, 29 anos – examinaram de perto a fonte radioativa, indiferentes ao fato de, desde o dia 19, terem apresentado cefaléias e vômitos, sintomas iniciais da contaminação radioativa.

                          Como sempre fizeram em outras ocasiões, EBS e OAFJ – 13 e 12 anos, respectivamente – foram à casa de DAF, e lá brincaram durante cerca de três horas daquele domingo, dia 20, expondo-se à fonte radioativa.

                          Na manhã de segunda-feira, dia 21, DAF recebeu a visita de EdF – pintor de automóveis, 42 anos. Entusiasmado, ele mostrou ao amigo o pó que tinha conseguido extrair de dentro da cápsula com o auxílio de uma chave de fenda. Tratava-se de alguns fragmentos de 137Cs, de tamanhos irregulares que, ao menor toque, se desfaziam em pó. O visitante, curioso com o que via, depositou uma pequena porção num dos bolsos da calça e levou para sua casa, situada à Rua 15-A, Setor Aeroporto. Mais tarde, ele ofereceu um pouco do que possuía a seu irmão, ErF, 47 anos, morador da Rua 17-A daquele mesmo Setor. ErF também carregou em um dos bolsos da calça as porções do presente.

                           E, naquele dia 21, a saúde de MGF apresentou sinais de piora marcados por consecutivas diarréias. Procurando atendimento médico no Hospital São Lucas, ela recebeu o mesmo diagnóstico concedido a WMP: reação alérgica à ingestão de alimentos estragados. Sua mãe, MGA – dona de casa, 58 anos – ao saber que a filha não se sentia bem, saiu de Inhumas (cidade próxima à Goiânia) para oferecer-lhe cuidados. MGA permaneceu em Goiânia até o dia 23, data em que retornou ao seu município, levando consigo significativo grau de contaminação radioativa.

                             Durante os dias 22, 23 e 24, os empregados de DAF – IS, 18 anos e AS, 17 anos – manusearam o cilindro separando o chumbo do metal . Quando este trabalho teve início, JNS, mecânico, 23 anos, ofereceu auxílio para, no dia seguinte, cortar a peça com uma tocha de óxido de acetileno. Depois disso, ele seguiu para sua casa, na Rua 57, Centro, e não mais se lembrou de cumprir o prometido.

                              No dia 23, WMP, que não apresentava melhoras em estado de saúde, foi internado no Hospital Santa Maria, localizado na Rua 05, Centro. Lá ele permaneceu até o dia 27, quando os efeitos da exposição radioativa na sua pele foram diagnosticados como sendo uma doença de pele. Por esta razão, providenciou-se a sua imediata transferência para o Hospital de Doenças Tropicais – HDT, localizado  no Setor Bela Vista próximo ao  Setor Parque das Laranjeiras, na periferia da cidade.

                              Anteriormente, no dia 24, IAF, 41 anos, morador e proprietário de Ferro Velho localizado na Rua 06 do Setor Norte Ferroviário, por sugestão de sua esposa foi visitar o irmão que estava doente e ENTÃO, à  noite conheceu o pó de que todos falavam. Depois de ter sido prontamente presenteado pelo seu irmão DAF, IAF acondicionou tudo num dos bolsos da calça e foi mostrar a seus familiares aquele material de rara beleza. Chegando em casa, a noite , colocou os fragmentos do 137Cs no piso  do quarto  para que todos pudessem apreciá-los.

                              Sua filha caçula, LNF, 6 anos, brincou com o material radioativo por diversas vezes. LNF acabou ingerindo pequenas porções de 137Cs. Os demais familiares – LuNF, seu irmão, 14 anos, e sua mãe LoNF, 37 anos -, bem como alguns parentes e amigos presentes no local – KSS, vigilante, 32 anos, LOMS, dona de casa, 29 anos e SPQ, 14 anos – também manusearam o material radioativo, porém, com menor freqüência. Assim, LNF foi atingida por maior grau de contaminação do que aquele que recaiu sobre os demais.

                               No dia  26, DAF resolveu vender o chumbo e metal do cilindro que abrigava a fonte. Procurou o senhor J, dono de um ferro-velho no Setor dos Funcionários para tentar fechar o negócio. MGF, esposa de DAF, sem o consentimento do marido, incluiu, em meio aos pedaços do chumbo a ser  vendido, a cápsula de aço inoxidável que guardava aquele pó estranho e que tanto receio lhe causava. Por esta razão, a peça contendo o 137Cs acabou sendo transportada para o estabelecimento do senhor J, aumentando a disseminação do produto radioativo.

                            Na manhã daquele mesmo dia, KSS, empregado de IAF, convidara seu amigo L, catador de papel, 19 anos, para juntos, irem ao IGR buscar outras peças. No referido local, os dois, depois de solicitarem auxílio a um desconhecido, puderam remover a carcaça da unidade de terapia, dias antes violada por RSA e WMP.

                           Feito isso, levaram a peça até o Ferro Velho de IAF onde decidiram colocá-lo sobre uma balança, o que só foi possível com o auxílio de um guincho da COPEL que estava no local transportando alguns  fardos de papel . Ao final desta operação, a balança se quebrou por não suportar tão grande peso 400 Kg. Um número significativo de pessoas já se apresentava fisicamente doente no dia 28. Naquelas circunstâncias, eram grandes as suspeitas de MGF sobre a possibilidade de ser aquele pó brilhante o causador de tudo. Ela decidiu, então, ir, juntamente com GGS, 31 anos, ao Ferro Velho do senhor J, para recolher a cápsula do 137Cs e poder comprovar as suas suspeitas.

                            Chegando lá, colocaram-na num saco de fibras e, depois de tomarem um ônibus coletivo, seguiram rumo a Vigilância Sanitária, então localizada na Rua 16-A, Setor Aeroporto. Ao descerem do ônibus, GGS colocou o embrulho sobre os ombros e desta forma o transportou até aquele local.

                            No interior do prédio da Vigilância Sanitária, após o pacote ser colocado sobre a escrivaninha do veterinário PRM, 39 anos, MGF, de forma dramática, disse-lhe que aquele pó, como se fosse uma praga, estava matando a sua gente. PM deixou o embrulho, por algum tempo,
sobre a escrivaninha. Mas, assustado com as expressões de MGF, removeu o pacote para o pátio de Vigilância Sanitária, colocando-o sobre uma cadeira junto ao muro. Ali a fonte radioativa permaneceu durante um dia.

                             Após saírem dali, MGF e GGS foram ao Hospital São Lucas e ao Centro de Saúde Juarez Barbosa, ambos na Rua 04, Centro. Lá receberam novo diagnóstico do seu quadro clínico: doença tropical. Por isso, não só eles, como também outras 10 pessoas contaminadas pelo 137Cs – e que eram portadores de sinais e sintomas semelhantes – foram depois
encaminhados para o HDT.

                              Ainda no dia 28, os doutores R e PCB médicos do HDT, começaram a suspeitar de que as lesões de pele apresentadas pelos pacientes recém-chegados teriam como causa uma contaminação radioativa. Temendo ser verdadeira esta possibilidade, eles providenciaram um contato com
o toxicologista AM, Superintendente do Centro de Informações Toxicológica do HDT.

                              Antes que este contato se efetuasse, PRM, da Vigilância Sanitária, informou a AM sobre um pacote com material suspeito que lhe fora entregue por duas pessoas. Naquela ocasião, PM ainda mencionou suas suspeitas de que aquela peça seria parte de um equipamento de Raios X.

                              Após submeterem a novos exames os pacientes instalados na enfermaria do HDT, os médicos R e AM constataram que o problema era grave e exigia investigações para que se chegasse à sua origem. De pleno acordo, ambos solicitaram o parecer do biomédico JP, 30 anos,
pertencente ao quadro da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Analisando cautelosamente os fatos, JP propôs que se solicitasse o exame do conteúdo do pacote ao físico WMF, 29 anos, que se encontrava de férias em Goiânia e detinha conhecimentos sobre radiação.

                               Às 08:00 horas da manhã seguinte (29 de setembro), após receber um telefonema de JP, WMF dirigiu-se imediatamente ao escritório da Nuclebrás – Empresas Nucleares Brasileiras S/A-, instalado em Goiânia. Lá ele conseguiu o empréstimo de um monitor de taxa de dose
normalmente usado em medições geológicas e que respondia rapidamente a estímulos, apresentando o amplo alcance de 0,02 μGy N-1.

                                No trajeto, a uma distância mais ou menos 50 metros do prédio da Vigilância Sanitária, WMF ligou o monitor. Instantaneamente, o aparelho acusou um elevado grau de contaminação radioativa independente da direção para onde estivesse apontando. Incrédulo diante de tal resultado, WMF retornou ao escritório da Nuclebrás e substituiu o aparelho, suspeitando de que o mesmo estivesse com defeito.

                                 Por volta das 10:00 horas, o físico dirigiu-se novamente à Vigilância Sanitária, usando outro monitor de igual alcance. O mesmo fato se repetiu e WMF finalmente se convenceu de que havia por ali uma potente fonte de radiação.

                                 Nesse ínterim, o veterinário PRM, extremamente preocupado com o material existente dentro do saco de fibras, ligou para o Corpo de Bombeiros exigindo providências.
Atendendo àquele chamado, alguns bombeiros acabaram sendo também atingidos pela radiação. Dentre eles estavam MCS, 26 anos, ADR, 33, e AWJ, 24, os quais, expondo-se ao conteúdo do embrulho, sofreram contaminação.

                                Chegando ali, WMF pode impedir que colocassem em prática uma solução que seria por eles adotada: jogar a cápsula de 137Cs num rio que corta a  cidade. Após uma rápida análise do material, WMF convenceu todos os presentes a deixarem o local. Em seguida, o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar isolaram o prédio da Vigilância Sanitária, impedindo o acesso de qualquer pessoa às suas dependências.

                               Quando já se aproximava do meio-dia, PRM relatou a WMF a procedência da fonte radioativa. Imediatamente, ambos se dirigiram ao Ferro Velho de DAF onde constataram graus de radiação superiores aos comportados pela escala do monitor de que dispunham. Com certa dificuldade, conseguiram convencer DAF, sua família e alguns vizinhos a deixarem a área, informando-lhes que, se permanecessem ali, correriam risco de vida. Todos foram retirados em ônibus da PM a noite. Em seguida, o local foi isolado pela Polícia Militar mediante solicitação de WMF, PRM e AM.

                               Saindo dali, WMF foi à Secretaria de Saúde do Estado de Goiás com o propósito de comunicar o fato às autoridades, relatando-lhes o acidente, o significado que ele possuía e, é claro, solicitando-lhes maior assistência. Como que incrédulos diante do que lhes era exposto
pelo físico, os funcionários daquele órgão não entenderam a necessidade de uma resposta imediata ao que se passava.

                               Levados pela insistência de WMF, permitiram-lhe falar diretamente com o Secretário de Saúde, médico AFF. O Senhor Secretário, ao ser informado sobre o ocorrido, prontamente entrou em contato telefônico com JR, Diretor do Departamento de Instalações Nucleares da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), transmitindo-lhe as primeiras informações sobre o acidente radioativo de Goiânia. Da mesma forma, o Secretário procedeu em relação ao Coordenador para Emergências Nucleares daquela instituição. Ciente das reais dimensões do fato, aquele grupo – que primeiramente identificou o acidente radioativo – não tardou em adotar medidas durante o período compreendido entre as 16:00 e 22:00 horas do dia 29 de setembro de 1987.

                                 Logo de início o Hospital de Doenças Tropicais-HDT / OSEGO  foi informado de que aquelas 10 pessoas ali internadas estavam contaminadas e sofriam efeitos de exposição radioativa.Todas elas deveriam ser isoladas. Paralelamente a isso, providenciou-se o alerta aos vários segmentos da Defesa Civil, bem como os reexames dos até então conhecidos focos de contaminação (o Ferro Velho de DAF e a Vigilância Sanitária).

                                 O Estádio Olímpico, localizado no centro da cidade, foi o espaço escolhido para o   monitoramento das vítimas, segundo o esquema de recepção planejado pela Secretaria de Saúde. A partir daí, os meios de comunicação começaram a noticiar o acidente, dando ênfase a este evento de repercussão mundial. Em meio às reações de medo, várias pessoas se dirigiram ao Estádio para serem monitoradas. Teve assim início a formação de um contingente representado por mais de 112 mil pessoas que foram examinadas durante os dois últimos dias de setembro e ao longo de todo mês de outubro daquele ano.

                                Um dos últimos eventos do dia 29 de setembro ocorreu por volta das 22:00 horas, quando JNS – que antes se oferecera para cortar o revestimento de chumbo com uma tocha de óxido de acetileno – encontrou-se com WMF ao ser monitorado no Estádio Olímpico. JNS contou-lhe como a fonte radioativa havia sido quebrada, onde as partes estavam depositadas e o que fizera com a carcaça. Este fato impediu que o acidente alcançasse maiores proporções. Tais informações foram utilizadas a partir do dia 30, data em que um grupo de técnicos da CNEN recém chegado à Goiânia, passou a identificar, com o auxílio de monitores, alguns dos outros locais altamente contaminados.

                              Durante aquela noite e todo o dia seguinte, procedeu-se a descontaminação inicial (banho com água, sabão e vinagre) de 249 pessoas que foram cadastradas por apresentarem diversos graus de contaminação. Dentre estas, identificaram-se 22 pessoas que tinham sido altamente expostas. Estas foram imediatamente isoladas, sendo 11 delas enviadas ao HDT. Nesta noite, médicos do HDT e da Comissão Nacional de Energia Nuclear examinaram cerca de outras 90 pessoas contaminadas. As 22 pessoas identificadas como altamente contaminadas foram
posteriormente encaminhadas para o Hospital Geral de Goiânia – HGG. As demais permaneceram reunidas no Estádio Olímpico e foram isoladas com auxílio de biombos improvisados, e agrupadas segundo o grau de contaminação, os sintomas clínicos e os grupos familiares. Cerca de 120 pessoas foram ali mesmo descontaminadas e em seguida, liberadas. Assim sendo, 129 pessoas constituíam o grupo que, a partir de então, passou a receber acompanhamento médico regular.

                               Dentre estas 129 pessoas, encontravam-se 79 com contaminação externa (recebendo, portanto, tratamento ambulatorial), e outras 14 que, por terem seu quadro clínico agravado, foram posteriormente removidas do HGG para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Deste grupo faziam parte as quatro vítimas fatais do acidente radioativo com
137Cs. Outras 36, que também apresentavam contaminação interna, permaneceram semi-isoladas em Goiânia, recebendo acompanhamento médico, psicológico e social. Trinta delas foram alojadas no Albergue Bom Samaritano e nas instalações locais da FEBEM (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor). As seis pessoas restantes continuaram internadas no HGG, sendo que a elas se somaram as outras 10 que retornaram do Rio de Janeiro.

                                Estes são os principais acontecimentos relacionados ao acidente radioativo de Goiânia. Dele surgiram resultados marcantes, dentre os quais a criação da Fundação Leide das Neves Ferreira, entidade destinada a criar bases onde poderão se assentar algumas soluções para um problema de reconhecida magnitude biopsicossocial – o que a torna uma referência para toda humanidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

The radiological accident in Goiânia. International Atomic Energy
Agency. Vienne 1988.

Depoimento verbal do paciente GGS. Julho 1988.

Depoimento verbal do paciente RSA. Julho 1988.

Depoimento verbal do paciente DAF. Julho 1988.

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e Huldra Alves Cardoso.

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